|
O Presépio
no Brasil
"Se
o mundo ainda quiser ter homens livres, se quiser ter homens
justos, se quiser ter homens com o espirito da fraternidade, é
importante não esquecer os caminhos do presépio."
Isso
foi escrito por D. Primo Mazzolari, expressando a lição dos
missionários católicos que há séculos adotaram o presépio como
instrumento de catequese: um pequeno mundo no qual, tal como
dizem os Evangelhos, as culturas e as histórias diversas podem
coexistir em paz fraterna. Assim, o presépio chegou a todos as
partes do mundo, das savanas africanas às extensões nevadas nos
confins dos pólos. Esta difusão começou com os franciscanos, mas
não houve uma única missão católica que não tivesse dado a sua
contribuição para expandir o amor pela representação plástica do
nascimento do Redentor, procurando, ao mesmo tempo, preservar o
maior respeito pelas tradições locais. Os padres e frades que
partiram para pregar a religião de Cristo foram tão convincentes
que exerceram influência até sobre os mais cépticos. Por
exemplo, Akbar, o imperador mongol da India. (1542-1605)
permitiu o uso do presépio nos seus domínios, muito embora nunca
tivesse se convertido ao catolicismo.
Para falarmos da história do presépio no
Brasil é preciso não esquecer dos
colonizadores que aqui chegaram: tantos foram os colonizadores,
tantas foram as influencias. Portugal,
Espanha e França são os que falam mais de
perto em virtude de sua grande contribuição nesta área.
Lourdes Milliet, em um artigo,
escreve: "Pesquisas elaboradas nos informam que, em 1532, mais
ou menos, o padre Jose de Anchieta, ajudado pelos índios,
já modelava em barro pequenas figuras
representando o presépio, com o propósito de
incutir-lhes esta tradição e honrar o menino Jesus no dia
de Natal. Mas não ha a menor duvida de
que foi entre os séculos XVII e XVIII que os presépios
foram efetivamente introduzidos e difundidos no Brasil
pelos padres jesuítas, portugueses,
franceses e espanhóis, que aqui aportaram para
catequese do gentio." Inicialmente, copiando ou se
inspirando nos modelos importados de
Portugal e Espanha, a arte presepista brasileira só bem mais
tarde adquiriu uma fisionomia própria e a riqueza de
linhas e de material que marcaram o
barroco nacional. O índio, o negro, o caboclo, a fauna, a
flora, a mitologia afro-americana, usos e costumes foram
transformando as influencias recebidas
em cenas comuns da vida diária, onde se destacam
lavadeiras carregando as suas trouxas ou lavando roupas
no rio; caçadores, fazendeiros,
colonos e trabalhadores cuidando de animais, tirando leite, ou
montados a cavalo percorrendo o caminho; mulheres dando
milho as galinhas, cuidando dos filhos
ou tirando água no poço; moinhos, cisternas, fontes e
monjolos movidos pelo riozinho sinuoso que, escorregando
por baixo das pontes, passa entre
capinzais, representados pelo alpiste ou arroz semeados
de fresco. Tudo isto, projetando-se na paisagem com seus
montes, árvores e casinhas de todo
gênero, pintadas com cores vivas, e a, igrejinha bem
iluminada. A Bahia é um dos Estados onde mais cresceu e
se difundiu essa tradição, graças
também ao seu precioso folclore. Jorge Amado, em seu livro
"Gabriela, Cravo e Canela", dedica algumas Páginas para
descrever com simpática precisão o
significado do nobre trabalho das irmãs dos Reis, em
Ilhéus: "Doceiras eméritas, mãos de fada na cozinha,
aceitavam por vezes encomendas para
almoços e jantares de cerimônia. Sua celebridade, no entanto,
aquilo a faze-Ias uma instituição na cidade, era o grande
presépio de Natal, armado cada ano
numa das salas de frente da casa pintada de azul.
Trabalhavam o ano inteiro, recortando e colando em
cartolina figuras de revistas para
aumentar o presépio, sua diversão e sua devoção... Era uma
daquelas casas de antigamente, com duas salas de visita
dando para a rua. Uma delas ha muito
deixara de funcionar como sala de visitas, era a sala do
presépio. Não que ficasse armado o ano inteiro. Só em
dezembro ele era montado e exposto ao
publico, durava ate as proximidades do Carnaval,
quando Quinquina e Florzinha o desarmavam cuidadosamente
e em seguida iniciavam a preparação do
próximo presépio... O Natal europeu com o Papai
Noel em carro de renas, vestido para a neve e para o
frio, trazendo presentes para as
crianças, não existia em Ilhéus. Era o Natal dos
presépios, das visitas às casas de mesa posta, das ceias
após a missa do galo, do início dos
folguedos populares, dos reisados, dos ternos de
pastorinha, dos bumba-meu-boi, do vaqueiro e da caapora".
Vários Estados do Brasil possuem uma
linda e rica serie de presépios. O "Presépio de
Piriripau", por exemplo, exposto Parque do Ibirapuera por
ocasião do IV Centenário de São Paulo,
possui 42 cenas que vão desde o nascimento ate
a
ressurreição de Cristo. Destaca-se, porem, a "Fuga para o
Egito", onde dois homens que ferram o
burrinho, colocam a ferradura ao contrário, a fim de
enganar os perseguidores. Cenas tão peculiares como esta
podem ser apreciadas em diversos
presépios do nosso País e que, infelizmente ainda
são bastante ignorados. No território paulista, o Vale do
Paraíba foi a região onde mais se
desenvolveu a arte presepista. A medida em que se
aproxima o Natal, os figureiros do Vale se dedicam à
confecção de presépios em barro cru
pintado que são vendidos por todo o Estado. A singeleza e o
colorido são traços típicos destas peças. Uma das mais
interessantes e o "Galinho do céu",
todo azul, altivo, imponente e orgulhoso e que ninguém
sabe de onde veio, mas desconfia-se ser ele o filho do
pavão!... Estes galos trazem na cabeça
três palitinhos, distribuídos em leque, com três
bolinhas nas pontas, simbolizando as três vezes em que o
galo cantou durante - O interrogatório
de Cristo. Também no Nordeste os figureiros se
fazem presente. Na figura do célebre Vitalino de Caruaru,
a cidade pode ser conhecida
internacionalmente por seus presépios com pequenas figuras
modeladas em barro. Acredito que nunca houve tanta
imaginação, religiosidade popular e
invenção quanto na elaboração dos presépios
brasileiros e de todo o mundo. Tantas vidas e tanta
dedicação a essa arte valem porque,
armar um presépio quer dizer: Cristo, centro do cosmos e da
história. Da história do nosso Salvador que quis se
misturar a nossa e que, depois de 2000
anos, podemos comemorar como um fato atual e presente, sem
precedentes em todo o resto da história da humanidade.
Texto de Hilda Souto
Durante
o período colonial o Brasil teve um artista excepcional: António
Francisco Lisboa, conhecido como o Aleijadinho. As suas obras de
grande proporções, em pedra e em madeira, decoram as igrejas da
sua terra natal, Ouro Preto, e as do estado de Minas Gerais.
Aleijadinho fez presépios para a aristocracia crioula,
esculpindo figuras não superiores a trinta centímetro: pastores
rezando, Reis Magos de uma requintada elegância. O seu estilo
pessoal combinou a arte académica dos especialistas europeus com
a força ritimca da arte africana, que chegou ao Brasil com os
escravos ali levados para as plantações. Os autos pastoris são
ainda muito populares no Brasil, mas o rito assume a forma de um
alegre jogo: os pastores com trajes da época procuram o Menino
Jesus peregrinando pelas casas das aldeias. Normalmente
encontram-no, feito de terracota ou de madeira esculpida.
* figura acima do mestre Antonio Francisco Lisboa
(Aleijadino)
|