Os Presépios Monumentais de Portugal


celebração litúrgica do Natal, tomando-se como comemoração do nascimento de Jesus, só foi introduzida na Igreja no século IV. A importância da festividade aumentou consideravelmente, como se era de esperar, e no século XVII encontramos registros que, referindo-se à data de 25 de Dezembro, mencionam: Hoje, primeiro dia do ano...

Apesar de existirem autores que falam de representações plásticas desde aquele século, como é o caso de Diogo de Macedo (Em redor dos Presépios Portugueses, Lisboa, 1940, p. 5), o hábito de fazer presépios teve um crescimento notável mais recentemente. Todavia o presépio foi motivo de dois tipos de 

representações fundamentais: a plástica e a teatral. Se a primeira, como vimos, se pode situar no último quarto do século IV, a segunda apenas temos conhecimento nos princípios do século XIII.

A representação plástica, terá assim, nascido associada ao culto da Natividade, iniciado por Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, ao passo que a teatral se deve a S. Francisco de Assis. A este propósito diz Diogo de Macedo (op. cit., p. 8): Tomaz de Célamo e S. Boaventura descrevem o presépio de São Francisco de Assis, do modo seguinte: - Três anos antes da sua morte, o Santo quis celebrar o Natal com solenidade, e pensou para isso, em armar uma cena verdadeira como a de Belém, auxiliando o natural com a arte, sem qualquer profanação. Prudentemente pediu com antecedência uma autorização especial do Papa, e depois chamou um irmão, encarregando-o de preparar em sítio modesto da floresta de Grécio, num recolhido buraco onde a poesia e a fé se juntassem, um altar em forma de berço, dispondo nele, sobre aromáticas palhas de feno, uma imangem pequenina do Menino Jesus. Engenhou então mais duas imagens grandes e vestidas com simplesa, que figurassem a Virgem e S. José de cada lado do berço, colocando junto um jumento e um boi autênticos, para que estes animais não tivessem honras de arte iguais à da Família Sagrada

Analisemos agora alguns aspectos referentes aos presépios de barro existentes em Portugal. Referia o Prof. Reynaldo dos Santos (História da Arte em Portugal, III, Porto, 1953) que:  Os presépios portugueses têm a par de um valor iconográfico e folclórico indiscutível, um sentido artístico da maior importância. Eles foram o refúgio da arte de muitos escultores mais sinceros no naturalismo destas representações da vida popular, do que na estatuária das academias. Mesmo nas cenas mais realista, dos pastores ajoelhados ou da família com os meninos a caminho do presépio, o talento da composição, a arte da modelação e o próprio estilo das roupagens exprimem um requinte de gosto que se não encontra na grande estutária da época. Jaime Brasil, no capítulo dedicado à escultura integrado em A Arte Popular em Portugal (II, Lisboa, s.d.) menciona: "Os autores que melhor se ocuparam das obras dos barristas portugueses do século XVIII parece terem-se preocupado mais com a identificação dos autores de presépios do que com as origens em Portugal dessa arte que repetia, miniaturalmente, a grande escultura, embora a despisse das pompas clássicas e da espetacularidade barroca, para só manter a pureza de linhas de umas e o pitoresco de outras, no movimento das personagens, no flutuar das roupagens, na exuberância das decorações. Dir-se-ia que, por vezes, a cena fundamental, o estábulo de Belém, é só um pormenor, embora central, perdido no meio da figuração."  Mas se parece não constituir dúvida o fato de ter sido o século de setecentos designado por Diogo de Macedo o século de presépistas o período áureo da sua produção, não importa lembrar os casos existentes anteriormente. A tal propósito é obrigatório citar o estudo de Fernando Castelo Branco, publicado em 1955, sobre Presépios de Lisboa nos séculos XVI e XVII.

Começa este autor por assimilar que: "De entre as várias manifestações da arte portuguesa, talvez nenhuma seja mais característica, nem conseguisse unir numa mais perfeita comunhão as correntes da arte popular dos grandes escultores, harmonizando em si as expressões do nosso folclore e as correntes estéticas de aspectos culturais, como o alcançaram os presépios.

 Essas obras de arte tipicamente nacionais na sua estética e nos sentimentos que exprimem, oferecem uma larga escala de variações, que vão desde o humilde e rústico presépio popular, obra paciente e singela de qualquer habilidoso anonimo, mas onde brilhava uma ligeira centelha de artista, até ao de exuberante apresentação, destinado a uma rica casa e nobre e executado pelos maiores escultores do tempo, como por exemplo, Machado de Castro."   Segundo se infere do Livro da Fundação do Mosteiro do Salvador da Cidade de Lisboa, escrito por Maria do Baptista, datado de 1618, existia alí antes dos meados de Quinhentos um presépio muito venerado.

Além deste presépio existiu pelo menos outro de que há notícia na Lisboa do século XVI. É o caso de um que foi encomendado ao escultor Bastião d'Artiaga em1558 pela irmandade dos livreiros de Lisboa, na igreja da Santa Catarina do Monte Sinai.

No século XVII os presépios espalhavam-se já pelo território nacional. Todavia, no século seguinte Machado de Castro notabiliza a produção, sendo-lhe atribuido vários.

Importante referir ainda que, como disse Luís Chaves (os Barristas Portugueses, Coimbra, 1925): "A composição e o estudo das figuras eram de tentar os artistas, sobretudo esses espíritos do século XVIII, cheios de luz, da opulência e luxo do tempo, como inebriados pelo movimento e fantasia de uma época excitante.  As encomendas para templos, conventos, ou para simples particulares eram grandes, como se pode calcular."    No que diz respeito à representação teatral, sobretudo no século das luzes, gostaria de citar o que Pedro Branco escreveu nas Notas para aHistória dos Bonifrates, Presépios, Fantoches, Robertos e Marionetas em Portugal(Oeiras, 1983, p. 14): " Existiram dois tipos de representações com bonecos: as óperas e os presépios, que por sua vez se dividiram em sacros e profanos. As óperas de bonecos faziam concorrência à ópera italiana. Isto devia-se certamente ao custo proibitivo desta última. Outra causa seria, a de, aos bonecos ser permitida uma liberdade de linguagem a mais  ninguém consentida.

Para lá das representações teatrais com bonecos, por altura do Natal, à semelhança do que sucede ainda hoje em alguns recantos do país, efetuavam-se autos onde entravam vários artistas. Enfim, uma palavra para a literatura e para a pintura. Na primeira, inúmeras alusões aos presépios, na segunda a respesentação, na tela da Natividade.s presépios seriam ainda mais populares que as óperas, pois espalhavam-se por toda a cidade instalando-se em qualquer local improvisado para o efeito. Mas se eram populares não era só o povo que gostava de a eles assitir pois é assinalada a sua presença na Capela Real. Os autos da Natividade e dos Reis Magos seriam a componente sacra do repertório. A parte profana desse repertório incluiria representações claramente satíricas com personagens e situações características.

Texto: Jorge Rodrigues M. Ferreira

Foto: Pormenor Glória, presépio Marqueses de Belas



 Os Grandes Presépios


Presépio da Sé Patriarcal de Lisboa

Os mais conhecidos são atribuidos ao escultor Machado de Castro, como é o caso dos presépios da Igreja da Sé Patriarcal de Lisboa e da Basílica da Estrela, também em Lisboa. No entanto o melhor dos escultores de presépios portugueses foi, segundo os especialistas, António Ferreira, um artista do início do século XVIII (por isso anterior a Machado de Castro) que, entre outros, fez o enorme presépio da igreja da Madre de Deus, em Lisboa. O Presépio da Sé Patricarcal é muito interessante pela quantidade de figuras e de cenários que engloba. Dos carros de bois, aos elefantes, há um pouco de tudo. Da suntuosidade do cortejo dos Reis Magos à pobreza dos trajes dos pastores. Machado de Castro não se esqueceu de representa nenhum pormenor. Uma das coisas mais interessantes deste presépio, onde as centenas de figuras estão todas a caminho da gruta de Belém, é que toda a gente traz presentes para Jesus. E diz a tradição que o rapaz que está mesmo à frente da manjedoura dando uma cambalhota, era um pastor muito pobre, que não tendo presentes para o Filho de Deus, resolveu fazê-lo rir! Mas isto é uma tradição contada oralmente de geração em geração e nada prova que tenha sido essa a intenção do  escultor querendo por um dos pastores às cambalhotas em frente do Salvador. Os presépios monumentais de terracota no século XVIII em Portugal foram, aliás, o tema para uma tese de mestrado de Alexandre Pais que, durante a investigação acabou por descobrir peças muito curiosas e de grande valor e desconhecidas do público.

No século XIX o presépio passa para o domínio da arte popular e os presépios monumentais caem em desuso. No século XX, a árvore de Natal ganha nas casas portuguesas o lugar central das celebrações do nascimento de Cristo e o presépio ocupa um lugar secundário. De grandes dimensões existe no coro alto do Mosteiro de Santo André de Ponta Delgada, e integrado no Museu Carlos Machado, a lapinha que pertenceu àquele mesmo mosteiro. É um dos mais ricos espécimes que possuímos, no género, já pela série de cenas que apresenta com base na vida de Jesus Cristo, já pelo número de figuras que nele se deistribuem, já ainda pela variedade de motivos ornamentais que o tornam um quadro exuberante de cor e expressão.

Neste magnífico exemplar de presépios do século XVIII, encontramos em planos separados, não só o nascimento do Menino na Gruta de Belém, como também a aparição do Anjo aos pastores, a adoração dos Magos, a apresentação do Menino no Templo, a degolação dos inocentes... cena patética que nos faz sorrir pela atitude dos soldados de Herodes - e o Batismo de Jesus. Quanto ao restante, verificamos que se trata, em boa verdade, de uma vivíssima descrição de quase toda a flora, pois além das mais variadas flores, ali se encontram cachos de amoras, em diversos graus de maturação, morangos, laranjas, uvas, enfim um cem números de motivos regionais em que a freira, autora do presépio, se inspirou por forma surpreendente. Os presépios e as lapinhas que ainda agora se contemplam nos Açores, são, portanto, uma das mais belas demonstrações da religiosidade do povo insular, no tocante ao culto da Natividade de Jesus.

Texto: Maria João Vieira



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